domingo, 25 de novembro de 2012

A arte da persuasão e pacificação do ministro Ayres Britto



No Supremo Tribunal de Justiça, estava havendo um grande impasse entre os ministros Joaquim Barbosa e Lewandowski, que em determinado momento chegou até a se retirar da sessão. Naquele instante, a presença do ministro Lewandowski era importante para não parar o julgamento e o Supremo não ser desmoralizado. Ele exigiu do presidente Ayres Britto um desagravo, pelos fortes embates com Joaquim Barbosa. Então, Ayres Britto habilidosamente proferiu:

"As pessoas de fora não entendem, e às vezes até ridicularizam, mas todos os data venia e 'Vossas Excelências' têm a função de garantir e, às vezes, restabelecer a concórdia entre os ministros (...). Todos precisam de afagos, ainda mais diante de debates duríssimos. Senão sobram muitas mágoas."

Quando os ministros retonaram na sessão, Britto disse:

"Tenho de cumprimentar o retorno de Sua Excelência, o ministro Ricardo Lewandowski, que reassume seu indispensável e altaneiro papel de revisor desse processo. Vossa Excelência e o ministro Joaquim Barbosa, para mim, só merecem aplausos e elogios."

Com essas sábias palavras, o julgamento estava mais uma vez salvo. Antes de sair do Supremo, Britto deixou um recado suave e reflexivo, sempre com um tom literário em suas palavras, o qual dignifica a sua sapiência:

"Não temos direito a mau humor. Entendo que nossas rugas aumentam para que nossas rusgas diminuam. Aprendi com meu pai. É dele também a frase que o juiz não deve impor respeito. Eu sempre disse para mim que derramamento de bílis e produção de neurônio não combinam."

Na Antiguidade, a bile representava a cólera, a agressividade, por isso que o ministro Ayres Britto fez essa comparação. Essas palavras, com certeza, ficarão na História, uma prova viva de como a habilidade nas palavras podem surtir um desfecho, em que persuasão e paz foram ingredientes fundamentais nesta receita.

Marco Valério

Fonte: Revista Época (19 nov 2012)

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